segunda-feira, novembro 08, 2004

Encher de vãs palavras muitas páginas

Livro

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
(Cetano Veloso)

Sinto serem vãs minhas palavras... gritos de curto alcance, quase mudos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Fer...muito loko esse texto. As vezes eu tbm sinto que as palavras são vãs, e não bastam para expressar o que sentimos, por mais numerosas que sejam...mas mesmo assim o que nos faz um pouco diferentes é que nós nunca desistimos de tentar, por mais fútil que seja a tentativa, e disso saem coisas maravilhosas. Parabéns pelo bom gosto menina.
Um grande abraço
Leandro Flores

Jorge Magalhães disse...

Que legal, vc tem sensibilidade, isto é raro e muito bom nos dias de hoje. Continue assim e boa sorte.